Mostrando postagens com marcador Adriana Calcanhotto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Adriana Calcanhotto. Mostrar todas as postagens

15.3.08

pelo nada um fio de lã

“Será que vale a pena abrir a janela, escancarar a alma e enfrentar o mundo?”

...assim que se vai nessa noite sabe-se que não há mais jeito. A repetição é sempre especular e sempre pra baixo. Não há como subir, não há como se salvar – e pra quê? se já não há serventia nem pros sapatos gastos que não fazem barulho de passos – de nada? No silêncio te procuro não como quem quer escapar; sei que a queda é iminente. Questão de tempo (ou de querer, simples coragem...). Te procuro como a face outra dessa que enxergo aqui por dentro, com esse meu terceiro olho furado e vazio que por muito tempo acreditei ser a solução de tudo. Da mesma forma como não te encontrei, nem em sorrisos nem no cuspe que ainda escorre pelo meu rosto, não vislumbrei aquela face minha que tu me deste.
E as folhas agonizam como as cinzas das horas que se findam no relógio opulento e sem ponteiros. A única luz possível é um rastro de rastilho da lã que, pólvora, estende a explosão anunciada lá bem longe de onde estou – pra onde vou. Daqui a pouco, agora não. Segure-se, segure-se bem firme ao corrimão. Não queiras cair antes da hora, despencar ante o segundo exato da queda-livre ensaiada. A simetria é absurda, envolvente, quase me hipnotiza em seu mimetismo próprio. Não querias saber a sensação? Não querias, de uma vez por todas, acabar com a dor? É simples. Eu sei. Esperemos, pois. Que ao longe a vista embaça, as lentes sujas, o mundo estagnado e as minhas lentes sujas, ou esse mundo de braços retorcidos e pelados? essa natureza morta-viva, essa penumbra de frio e solidão. Não me desampares agora, não há mais ninguém aqui. Aqui. Aqui não há mais ninguém. Tens razão. Mas é preciso que se enfrente tudo por si mesmo. Não há fuga, não há jeito. As coisas clamam por ti. E que venhas tu, às coisas, que elas te esperam, que te espero. Não aí. Não daí onde estás. Não. Vem a mim.
Não escuto o clamor. Só o silêncio preenche o lugar, esse lugar que é sempre o mesmo, até nunca mais. Nem medo – não, não há medo –, apenas essa sensação de corte fino e a pele enrugando-se e descascando-se até que pequeníssimas ranhuras brotem em sangue, rusgas de meu corpo com o corpo do mundo, que rejeita essa matéria sua como feto abortado de minha mãe, da primeira mãe, de todas as mães. Há sempre o momento em se regurgitam os abscessos purulentos que incomodam à carne alheia, à túrgida carne da natureza que se nega ao colorido que lhe mascara o sentido último, a pulsão primeira: a liberdade. Contudo a liberdade é cruel, amarga, feia, só e não serve de nada. Ninguém a quer. Não a quero.
Apanho o fio. O bolo ainda é pequeno. Posso vê-lo meio sem graça, envergonhado e verde um pouco mais abaixo. E confortável. Aquele novelo de lã em verde bolo transmite o acalento de um abraço teu, apertado, amigo, paixão de graça descoberto em simples desenrolar, movimento contínuo, abrir de zíperes, botões espatifados no duro e sujo chão de concreto. É lama, não sujemos as meias brancas, não maculemos o nosso segredo só nosso, não deixemos nós que os outros, à espreita, porque sempre os outros à espreita, façam razão de nossos atos, maneiras tão nossas de ser. Danem-se. Um fio de lã verde, você. As coisas clamam por mim. Me espera, tô indo. O vento bate em minhas costas, zéfiro, violento, cambaleio qual bêbado por ti, só naquele fio de lã me seguro, e só por ele – você – até ti, me guio. O novelo corre veloz lá pra baixo por onde as vistas embaçam e os ruídos misturam-se ao murmúrio das folhas que viram cinzas e cobrem o manto rubro escarlate do término num baque seco, gritado, sereno...
- música do post: "esquadros", Adriana Calcanhotto

26.1.08

síndrome da moeda (?)

...esse post é pura lavação de roupa suja. Mais que isso até, representa quase que um ritual de passagem: com ele, guardo umas coisas e enterro outras - e espero poder mantê-las assim pelo menos uns tempos. Como tudo nessa vida, as heranças também são uma espécie de ciclo. Pensem bem: a herança é um legado passado (e do passado!) de um certo alguém a você. O que não impede, porém, que haja, no meio desse caminho, algo ruim. O que quero dizer é que nem tudo o que fica é necessariamente bom. É claro que o "normal" é sermos tomados por aquela sensação nostálgica e que reveste as coisas com o manto do bem, em que todo mal é de súbito esquecido. Pois eu não penso assim... tudo tem dois lados. Não, isso não é sintoma de "síndrome da moeda" não, é apenas uma constatação mais do que óbvia, talvez, e cartesianamente comprovável com facilidade (afinal de contas, não foi assim que Newton descobriu a gravidade?). Assim como o que sobe tem de descer, o que começa tem de terminar. Eu sei eu sei, a Disney incutiu nas nossas cabeças durante décadas que, no final da estória, há um happy ending e, pior!, que ele dura pra sempre. P-R-A S-E-M-P-R-E ! ! ! Sintam bem o peso disso... Bom, eu não quero (mais...) carregar esse tipo de responsabilidade nos meus ombros tensos pelo estresse diário. Enfim, fora desse imaginário made in Hollywood, o que nos resta - de resto mesmo, igual ao de comida requentada - é a pura e simples (e, muitas vezes, enfadonha) realidade, cuja noção de término está embutida. Não quero entrar aqui em termos filosóficos de porta de banheiro de botequim, dizendo coisas do tipo "mas é assim mesmo, a morte é a única certeza da vida", até porque se ditado, conselho ou lugar-comum fossem bons não seriam dados de graça, e sim vendidos. O pulo do gato é que a questão da herança se insere perfeitamente nesse caldo knorr. E por quê? Ora, simples como tomar sopa: a gente só recebe herança de alguém (ou algo, vai saber) que não existe mais. E que, por isso, temos de guardar, preservar de alguma forma. Como sou minimamente organizado e neurótico, resolvi separar em duas caixas as heranças que me ficaram de um relacionamento longo e de altos e baixos: numa, escrevi "caixa" mesmo, em que ficam as coisas boas que passaram; na outra, escrevi "caixão", obviamente porque tenho o intuito de enterrá-la. Bom, não vou dizer que o processo foi fácil, seria mentir com a cara mais deslavada desse mundo. Até porque vocês sabem muito bem que esse tipo especial de herança não é registrado em cartório, não tem firma reconhecida e nem mesmo precisa passar pelo tabelião... ou seja, a tarefa foi toda minha - mexer em tudo o que tava misturado, separar o bom do ruim (o que às vezes se torna algo difícil, já que não tenho experiência nisso e muita coisa acaba se confundindo), fechar e lacrar cada caixa. Bom, tive muita sorte de notar que, no final das contas - e de todo o processo, da papelada e afins, a caixa escrito "caixa" tava bem mais cheia, na verdade abarrotada de boas lembranças, ótimos momentos, fotos, poemas, presentes e um amor de que vou me recordar sempre que achar nunca ter sido feliz, pois eu fui... já a outra, o "caixão", ficou somente com umas poucas mágoas e rancores dos quais quero me livrar o quanto antes. Quer saber, nem vou enterrá-la não, vou cremá-la até que se transforme em cinzas, micro-partículas ínfimas de coisas que sequer arranham o volume imenso do que guardei de bom pra mim. Planejo jogá-las num lugar bem bonito - mas que tenha água, que a tudo purifica. Talvez não direto no mar, porque correm o risco de, mesmo se desfazendo, voltarem pra mim. E não, não quero mais essas mágoas e rancores e raivas e sei-lá-mais-o-quê de volta. Um rio. Isso. Jogarei essas cinzas num rio, bem pra longe, sempre correndo, sempre pra frente, adiante, avante, shazam! Assim, quando finalmente chegarem ao mar, estarão já tão diluídas que não vão poder fazer mais mal a ninguém. Inclusive mesmo a mim... Eu entendo que talvez nada disso faça muito sentido pra vocês ou desperte algum interesse relevante, mas saibam que eu precisava exorcizar essas coisas, justamente pra virar o disco e tocar essa vida adiante. A partir de agora, espero encarar o futuro (e o hoje...) de forma diferente. Como eu já disse aqui, tudo tem dois lados. E a lição que talvez eu possa tirar (e o propósito primeiro desse post) seja finalmente compreender que basta apenas a nossa atitude e a nossa vontade de optar por um deles. Se bom ou ruim, não importa, pois a escolha é pessoal. Aliás, sempre é mais fácil escolher, optar; o difícil é depois arcar com as conseqüências. Prefiro acreditar que cada um sabe o que faz... Bom, eu acredito que sei, opto e banco as minhas responsabilidades. Já acendi o fogo, as cinzas num instante ficam prontas. Espero só não me queimar...

- música do post: "pelos ares", Adriana Calcanhotto