18.5.09

a primeira perda

...aqueles trinta e oito degraus de madeira um pouco puída era a exata distância que os separava. Quer dizer, os trinta e oito degraus mais vinte e seis passos; quinze, estivesse com pressa. Não estava. E ele não precisava refazer a contagem, já a tinha feito inúmeras e mais incontáveis vezes. Coisa de criança, criança que era.
Conheciam-se desde que se entendiam por gente, e sim, eles entendiam-se por gente à idade de oito anos. Havia apenas um senão: não se tratavam de dois meninos ou duas meninas. Não podiam, igualmente, brincar de lutas ou bolas, como não podiam brincar com bonecas – eram as duas crianças um menino e uma menina nesse mundo de convenções e tabus. E por essa aparente incongruência ou incompatibilidade de um proclamado destino é que os dois, o menino e a menina, brincavam de tudo um pouco: tanto de lutas, como de bola ou com bonecas. A liberdade de serem crianças dava-lhes a chance de infringirem, de certo modo, as barreiras que ainda não conheciam entre eles.
No trigésimo oitavo degrau, a bola debaixo do braço, pelo rosto meio pálido do menino nada disso passava, e sim que faltavam apenas mais vinte e seis passos pra encontrá-la. Ele morava embaixo, e por isso o esforço que fazia pra galgar os dois andares que os separavam mais tarde poderia ser interpretado como gesto de cavalheirismo. No momento era apenas um ato típico infantil, o de um colega ir buscar o outro pra brincar.
Aproveitando-se da licença que tinha, com intimidade percorreu os cômodos até o quarto. Com a mesma intimidade abriu a porta, como tantas outras tantas vezes fizera. E só então aconteceu. Ainda sem roupa, a menina olhou-o sem espanto, ao contrário dele. Mais lívido do que normalmente era, o menino não conseguiu descrever de outro jeito a cena do que deixando a bola, antes debaixo de seu braço, rolar corredor afora. Antes desse momento fatídico eles eram iguais, porém a descoberta cavou um profundo abismo entre os dois. Talvez a menina não fosse tão inocente quanto o menino, ou o fosse muito mais do que ele, pois em nada modificou a atitude. Movida somente pelo automatismo cotidiano, colocou o short que costumava usar pra jogar bola, o blusão já meio manchado e sentou-se na cama pra colocar os tênis brancos encardidos. Perplexo, o menino simplesmente não cria na naturalidade da antiga companheira. E ela, com a mesma expressão mista de ingenuidade e complacência, olhava-o com certa curiosidade. Abriu um sorriso, exatamente o mesmo de antes, inclusive com o mesmo dente falhado como o de antes, mas o menino não viu assim. Era completamente diferente. As crianças não têm sexo uma pra outra, a não ser no momento em que se descobrem homem e mulher. E por mais ínfima que fosse tal descoberta, ou então abrupta, como talvez nesse caso, era definitiva. É a mudança primordial. É a primeira perda.
O menino de algum modo reconhecia isso naquele sorriso, não mais nem nunca mais o de sua companheira de antes, de lutas ou bonecas ou até bola, como a que estava parada, também perplexa, encostada na parede do corredor. O sorriso que o menino reconhecia era o de uma mulher. E sentia-se traído por isso, como se ludibriado durante todo o tempo que passaram juntos. Traidora, chegou a pensar, mas não mais, porque algo líquido, quente e salgado subia-lhe pela face até os olhos, junto a um rubor repentino. Não choraria na frente da menina. Não dela, a traidora. E tantas vezes havia chorado justamente em seus ombros, nos ombros dela, por um joelho ralado ou um galo qualquer. Mas agora tudo era diferente, e, se ele ainda não tinha consciência disso, sobrava-lhe apenas aquele sentimento sem-nome que apertava seu magro peito.
Um homem jamais chora na frente de uma mulher, era o que lhe haviam dito. E tudo aquilo que se acotovelava dentro dele querendo explodir, sair aos borbotões jorrando toda a indignação faiscando em seus olhos, tudo isso o menino engoliu junto com o choro. Não, e era definitivo: não daria esse gosto àquela mulher; ou a qualquer outra. Traído, subjugado em sua inocência então revelada virilidade, o menino, descobrindo-se homem, juntou o que lhe restava de brio e, negando àquela mulher um olhar último que fosse, ela que inquiria dele uma resposta à súbita revelação, masculinizou-se. Ela que se revelou toda Eva tornando-o Adão, ele que nunca quis ou sequer vislumbrou tal responsabilidade. Ele que não aceitava esse peso de culpa sobre seus ainda estreitos ombros frágeis, o menino-homem que ainda não aguentava carregar consigo o fato da infância pra sempre encerrada. Não, a isso ele se negava. E ela, a mulher, talvez ainda mais aturdida que ele, ela que ficasse com seus tênis e cadarços e sorrisos.
Foi então que o menino, cobrindo de si a parte agora homem, máscula, deu-lhe as costas, tomou a bola novamente debaixo do braço e, resoluto, adulto, maduro, desceu novamente e pra nunca mais voltar os trinta e oito degraus que os separavam. Essa é a distância da primeira perda de todos nós, mais os vinte e seis passos, ou quinze, se estiver com pressa. Mas não, ele estava apenas apaixonado. E completamente perdido...

- música do post: "velha infância", Os tribalistas

11.5.09

d berço

...aos dez anos, todos achavam graça quando ele, o menininho, saía ao jardim pra caçar formigas. E todo paramentado com suas calças compridas, camisinha cáqui, chapéu de caubói dado pelo padrasto, as galochas negras que usava nos dias chuvosos pro colégio e, claro, a pistolinha d’água, inseparáveis, os dois, pra tal determinada tarefa. Cenho franzido, bico de lábios vermelhíssimos concentrados, e lá ia ele, o menininho, exterminar a praga que atormentava a família e aterrava qualquer tentativa de piquenique.
Não era fácil, a missão: o menininho lutava ferozmente contra aqueles insetos tenazes de vida, porém minúsculos de força. Podia-se dizer que era covardia, mas as proporções de um fato modificam-se dadas as circunstâncias: que mal poderia haver numa criança brincando de matar formiguinhas no quintal de casa? Era aplaudido ao retornar, sujo nas canelas das calças e ainda mais imundas as mãos e a camisinha cáqui, então quase negra quanto as galochas. No entanto, o que mais chamava a atenção, e só eu percebia, era a expressão de felicidade no rosto do menininho, um regozijo tamanho que, bem observado, seria até o da satisfação de uma crueldade.
Aos vinte e cinco, já no curso de medicina, aprovado com louvor em primeiríssimo lugar, tinha como matéria preferida a anatomia, em cujas aulas sempre se destacava por ser o mais aplicado, assíduo e interessado. O rapaz adorava, sobretudo, os momentos em que estudavam os corpos abertos, os órgãos à mostra, as entranhas desnudas de gente, que, pra ele, representavam perfeitos instrumentos de fascinação. Comumente pedia horas-extras com os professores, pra que lhe explicassem ainda mais detalhadamente os pormenores da máquina humana, em companhia, claro, do laboratório e cadáveres tantas e outras tantas vezes remexidos, costurados e descosturados pelo próprio rapaz, que se formou cirurgião com todos os louvores que lhe poderiam ser conferidos.
Nas reuniões com os ex-colegas de curso, anos depois, ria-se histericamente ao lembrar dos desmaios, convulsões, confusões, azias e ânsias de vômito dos outros na presença dos corpos estudados. Talvez ninguém mais reparasse o brilho com que o rapaz encarava aqueles rostos sem vida, descoloridos e enegrecidos pelo gelo das câmaras, admirando a expressão pra sempre surpresa e imóvel, mesmo quando lhes abria o ventre sem a menor cerimônia, violando o que de mais íntimo se pode tocar noutra pessoa.
Talvez apenas eu tenha reparado na mania que adquiriu de dar nomes àqueles seres sem vida, tanto tempo passava com eles. Escrevia-os no verso das fotos que tirou escondido, a primeira vez apenas de brincadeira, das outras por obsessão, e as quais guardava numa caixinha de madeira no fundo da última gaveta de sua cômoda. Como lembranças, como prêmios, como peças de um extenso e macabro relicário daquelas feições petrificadas, pro rapaz tão corriqueiras e familiares.
Aos trinta e nove, o menininho, o rapaz, o competente profissional, que a essa altura já havia se tornado precocemente a maior promessa na área de cirurgia do país, foi encontrado diante dos pedaços de sua secretária, retalhada por ele, com perfeição e orgulho, terminando de beijar a boca defunta borrada de batom carmim...

- música do post: "bésame mucho", Maysa

2.5.09

olhos d gato

“Is all that we see or seen
But a dream within a dream?”
Edgar Allan Poe

...a noite silenciosa era o convite perfeito pra um perder-se por aí. Em plena insônia, via-me divagar entre as frestas da quase-loucura do sono negado por perturbações de alma cindida. A casinha no meio do campo guardava a paz funérea de um antigo cemitério. E eterna. E o saber imutável da situação revolvia o meu estômago de dores insuportáveis, dores que me falavam fundo de tristezas emolduradas pelo tempo. No limite de não poder mais calar os gritos que teimavam crescer em mim, reverberando como ecos dantescos por minhas entranhas, resolvi levantar-me e tomar um copo d’água. Assaltou-me o pensamento infantil de afogar as mágoas, quer fossem o que fossem. Nunca antes a distância pareceu tão grande. Nunca antes os passos tão lentos. A cabeça pendida lembrava-me a de um condenado à morte por algo horrível. Talvez mesmo me condenasse por algo horrível que jamais cometi. No entanto, continuava o tortuoso caminho, já que indulgência não se dá a si próprio, até que topei com a geladeira, destoando do momento. A geladeira, e não eu, que perfeitamente me inseria no contexto das sombras diversas, tão fantasmagóricas as coisas se tornam sem o desvelo da luz. Copo cheio, a água descia fácil e evaporando-se pelo meu interior, que secamente restava. Pela metade, chamou-me a atenção um vulto curioso vindo da janela entreaberta: um gato preto encarava-me com seus olhos verdes, profundos, misturando-se à grama do jardim e ao negrume da escuridão. Um gole ficou pelo meio, engasguei com vontade e, quando dei por mim, não de todo recuperado como tonto, outro gato, dessa vez pardo e de olhos igualmente verdes, também me encarava. Infinitos, os gatos detinham todo tempo do mundo, relativizando meu parco conhecimento assustado de copo escorrendo pela mão. Se meio cheio ou meio vazio, não importa: é questão de ponto de vista, somente. Só e já então entregue ao momento, o arranhão do gole abortado abafou os rasgos das unhas ávidas pelo meu corpo metade desnudo. A última coisa que vi foram aqueles pares de olhos, verdes, vítreos, hipnotizando-me de um sossego eterno. No dia seguinte, os cacos continuavam no chão...

- música do post: "one day i'll fly away", Nicole Kidman

25.4.09

num momento d dcisaum

...ao atravessar de um lado pro outro em meio à madrugada de uma rua deserta, teve de tomar cuidado pra não tropeçar e cair em cheio na poça. Havia chovido bastante durante toda a noite, mas não reparara. E nem poderia. A mesa que costumava ser sua naquele restaurante numa outra rua menos deserta ficava virada pra parede, negando-lhe a possibilidade do presente. Não que isso o incomodasse, pelo contrário.
As fotos antigas penduradas em velhas molduras traziam-lhe a nostalgia do que não volta mais, e não voltar mais era exatamente do que precisava, se bem que sempre na décima terceira dose percebia que não funcionava dessa forma, mas aí já era tarde demais. Se lembrar das coisas não doesse, o que seriam então aquelas inúmeras ressacas em tantos dias seguintes que na verdade eram o mesmo interminável inferno? Fora abandonado, e teria de lidar com isso uma hora ou outra. Atravessando as ruas desertas em meio à solitária madrugada de rumo incerto, sentia como se o fizesse pela última vez.
O apartamento minúsculo onde morava a cada dia mais se transformava numa lixeira de lembranças. Não suportava permanecer ali. Por outro lado, não aguentaria se desfazer daquilo que o impedia de esquecer o restante. Riu-se da ideia, e por um átimo pareceu que uma fagulha de alegria iluminava o ambiente carregado. Foi só por um instante, mas podia-se vislumbrar que até o próprio apartamento vibrava na expectativa de dias melhores. O riso, que era histérico e alucinado, desfez-se em careta sombria, mergulhando tudo, inclusive ele, nessa atmosfera esquizofrênica que cheira à fumaça de cigarro barato. Riu-se de novo e de repente, percebendo que, sendo aquilo uma lixeira, ele mesmo era parte do lixo. O que não deixava de ser verdade. Desde que ali ficara sozinho, realmente tornara-se pedaço de coisa alguma.
Como se driblando a morosidade do corpo em torpor pelo excesso de álcool, levantou-se o homem e, enganando os próprios pés com passos lépidos e certeiros, como a faca que buscaria, cortou o ar até a cozinha. Procurou em todas as gavetas, não encontrou, até lembrar-se de ter vendido todos os talheres e também tudo o mais que podia ser vendido dali. Precisava de dinheiro, estava desempregado desde que... desde que estava só.
Talvez só lhe restassem pouquíssimas alternativas. Por isso, num momento de decisão, correu atropelando-se em direção ao banheiro. Não havia mais espelho, não queria ter o desprazer de se olhar desse jeito, esmorecendo aos olhos de todos. Como um homem pode chegar ao fundo de si mesmo? O processo ele desconhecia, mas o resultado gritava como queimadura encarnada na pele.
Pegou a gilete. A lâmina cega não chegou nem a arranhar as profundas cicatrizes da última tentativa. Desesperado, o homem ainda pensou em atirar-se janela afora. No entanto, da outra vez conseguiu apenas estilhaçar ambas as pernas. Parecia condenado à sua própria subsistência, a uma vida marginal oscilando entre a morte e o vegetar, o vegetar e a morte – e o estar sempre bêbado. Era a sua estratégia que pensava ser só sua, segredo de si pra si. Mal sabia ele quantos sentiam pena daquela condição. Fazer o quê? Ele era um homem sem função alguma. O pragmatismo que lhe exigiam: não, jamais. Um homem como ele não viveria por muito tempo assim, ferido de morte. Fosse bicho, talvez já lhe tivessem sacrificado, mas a crueldade humana preferia que restasse assim, morto-vivo, pra tomá-lo como exemplo do fracasso, de uma falha a não ser repetida. O sofrimento alheio é, antes de qualquer coisa, combustível de nossas ambições.
Porém o homem não pensava nisso. Aquele ser de interior destruído e destituído de si queria apenas ter o direito de morrer. Até que ponto não se pode decidir sobre o que se tem de mais essencial, como a capacidade de acordar a cada dia sob o peso de nossa carne? E a carne do homem lhe pesava, e apodrecia, mesmo que ainda aparentemente intacta. O homem era uma putrefação em plena existência, jogado às traças de recordações espalhadas pela sala escura e sonolenta. Aquelas cartas, ele já as lera milhares de vezes, até a última, que nada nunca lhe esclarecia, pelo contrário, tornava-o ainda mais canhestro dentro de si e de suas olheiras pisadas.
Nem mesmo eu sei o que aconteceu ao homem e estou quase certo de que ele também não sabe. Mas não importa, porque não se sofre à toa, apesar de que a mais ínfima das desconfianças pode levar um homem como aquele, ou talvez apenas qualquer outra pessoa, ao limite de se transpor a si mesmo. E não há volta...

- música do post: "it's a heartache", Bonnie Tyler

18.4.09

...se eu te pedir pra dar o fora da minha vida, por favor, meu bem, não hesite e vá logo embora. Que eu nunca te prometi nada, nunca disse que te amava e nem as nossas transas são assim tão boas. Se eu te pedir pra nunca mais me procurar – nem mesmo quando a saudade apertar fundo no teu peito, porque sim, sei que cê sentirá a minha falta –, por favor, meu bem, jamais me telefone, esqueça que eu existo e vá caçar outro amor pra te curar as feridas que vou te deixar (e sim, sei que vou te deixar as marcas mais profundas). Que cê foi sempre assim, frágil, com essa cara pálida de sardas que parecem desmaiar contigo. Contigo eu sei apenas que uma hora não vou querer mais nada. É o meu jeito de ser, não me leve a mal, apesar de achar que, chegado o momento, cê é capaz de sentir ódio de mim. Passional. Teu coração é que manda em ti e sempre te avisei “olha que qualquer dia vai dar merda”. Já tá sentindo o cheiro? Talvez não. Eu sim. Que nunca disse que ia te aturar pro restante da minha vida, das nossas vidas, da tua vida que cê fez toda questão de resumir à minha, e aí nós dois nesse círculo vicioso de que pretendo me livrar algum dia. Mas as crises serão tuas, todas tuas, que eu não sofro de abstinência de ninguém. Nem de amor, que consigo a hora que bem quero, pelo tempo que quero, de quem eu quiser. Assim como consegui e ainda consigo de ti. Se eu te pedir pra nem me cumprimentar na rua quando me vir, se me vir novamente depois de..., o que espero que nunca aconteça, por favor, meu bem, somente finja que sou um estranho pra ti, mesmo sabendo que sempre serei tudo pra ti, mesmo que isso te faça querer implorar pra que eu reconsidere. Isso nunca vai acontecer, se eu te pedir que saia por aquela porta que pintamos de amarelo-ovo juntos no nosso primeiro aniversário. Que eu não aguento mais tuas manias, teus cuidados e teus sorrisos. Nem mesmo o teu perfume nem teus ciúmes forçados, só pra mostrar que ainda me ama, que se importa comigo. Se eu te pedir que não se importe mais comigo, que não goste mais de mim, por favor, meu bem, não discuta, não teime, apenas vá, com tuas trouxas debaixo dos braços abraçados por mim tantas e tantas vezes. Vá por aquela porta que pintamos juntos e jamais regresse. Não toque a campainha que não vou te atender. Sei teu jeito até de apertar a campainha, teu jeito de falar, teu jeito de andar. Sei exatamente teu jeito de ser você como talvez cê nem saiba que eu sei. Mas eu sei, pode crer. E sei também que não adianta te pedir, como das outras vezes, que não tenha pena de mim. Depois do que houve, que cê não tenha pena de mim. Adivinho nos teus gestos, vejo nos teus olhos, escuto da tua boca, descubro pelo teu sexo... Não é culpa tua, talvez seja mesmo algo natural de se sentir. Mas eu não admito. Me dei conta de que o orgulho é bem maior que qualquer coisa que sinto por ti, ou então é só o medo de que no futuro não me reste nada por ti a não ser orgulho de mim e de que por mim não te reste coisa alguma senão pena. Por isso prefiro te ofender – dedo em riste – e te dizer as verdades que em outro momento poderia atenuar, é por isso que quero que cê simplesmente me deteste com todas as tuas forças e também por isso te imploro que, se eu me arrepender do que te escrevo agora, se mesmo a atitude que resolvi tomar – porque sou covarde, eu sei, mas por trás de todo grande orgulho há uma grande covardia, uma vez cê me disse e te dou razão – não fizer com que eu tenha, enfim, sossego (e eu não suporto mais), ou sinta o alívio que nada me proporcionou, nem mesmo você, por favor, meu bem, mesmo assim, mesmo depois de tudo isso, mesmo que seja por amor, esse corpo estranho que verdadeiramente nunca conheci, meu bem, por favor, não tente me salvar...

- música do post: "fim de caso", Maysa

11.4.09

soh, + 1 prece

...levantou-se como se partisse. Era noite e no meio da escuridão topou com algo que era si-mesmo através do pé na quina de algo duro, de madeira, de algum material que matéria era mais do que ele. Percebia-se vagamente, a não ser no ponto lancinante onde uma dor doía fino e consistente, como quando se tem algo preso na garganta – mas que não pode ser dito: não, não se pode dizer a coisa que fica presa à garganta: há o perigo de revelar-se.
A cabeça girava, uma leve tontura mansa. Hipnotizado num estado de semiconsciência – ou quase-sono, ou sonho, ou despertar ou qualquer outro desses estados em que não se é possível abrir os olhos e simplesmente ver – um cheiro verde penetrou-lhe nariz e corpo e entranhas adentro, o estômago se retorceu e os últimos restos podres de um jantar mal-sucedido (“Boa noite”, e então a porta fechou deixando-o pálido e incongruente do lado de cá, que é sempre o de fora. Sequer um sorriso.) vieram à tona como a náusea que de súbito o fez agarrar-se à porta, temendo que fosse agora, que fosse a hora, não de ficar, nunca era, mas de ir embora. Não, de novo não.
Numa dessas o dedo escorregou. A luz acendeu, clareando ainda mais de branco os azulejos, que refletiam nele a sua própria palidez, mas também e sobretudo a simetria que lhe era jogada na cara numa falta que não, jamais poderia reverter. Cumprir a pena parecia ser a única saída, pois se antes já havia tentado todas. Ele era justamente aquilo que não poderia ser.
Os olhos já acostumados à luz, viu-se então ao espelho. E como bicho selvagem não se reconheceu. Via o seu rosto, a sua carne, os seus pêlos descendo do peito até mais embaixo, até o ponto onde o tecido azul-claro da cueca escondia a sua alcunha de macho. Mas se não era ele mesmo, quem seria? E a pergunta fatal criou um hiato naquela noite. Os azulejos brancos e pálidos e simétricos sem graça encolheram-se todos envergonhados em seu hermetismo maquinal cuja luz engolida por uma possibilidade súbita de interrupção também mantinha-se imóvel. Chegaram todos ao ponto nevrálgico da coisa: ele questionou-se quando nunca o poderia ter feito. Pois num hiato pode-se perder tudo: é melhor que não saibam de nada, ou, ainda melhor, que não se saiba, apenas. É perigoso tentar dizer, pois quanto mais se fala menos ao espelho se reconhece. Assim...

pro Gustavo, pela lembrança de Bethânia
e por me fazer enxergar a frustração...
PS: que usemos a Páscoa pra refletir...

- música do post: "vida", Maria Bethânia

4.4.09

náufragos d fuga

...de longe eu o podia avistar, a mesma posição de antes, sentado sozinho na beira da praia. Ali, onde é o limiar entre a precária concretude da areia molhada e as pequenas marolas salgadas, abraçava as pernas de encontro ao corpo, a cabeça apoiada nos joelhos – levemente pendida pro lado esquerdo –, e os olhos perdidos no horizonte. No que pensaria o rapaz, pergunto-me, enquanto continuo a observar-lhe os cabelos lisos revoltos pelo vento que assobia forte, único indício de som.
Nossa conversa é muda, minha e do rapaz. Comunicamo-nos como em torre de babel, cada qual com seu idioma, linguajares distantes, indo de encontro à arrebentação. Nem mesmo sei se de lá ele sabe que estou aqui, irrequieto, tentando contatos ininteligíveis. É fato que não o conheço, e talvez por isso qualquer coisa de pudor faça de meus passos âncoras que me impedem o movimento. Mas mesmo assim permaneço nesse jogo só meu, do qual as regras, tácitas, não parecem fazer o menor sentido.
De repente as coisas mudam, como mudam inerentemente todas as coisas do mundo. Nuvens espessas tomaram os céus, reivindicando um espaço cinza-plúmbeo cada vez mais delas. Choveria, muito em breve, porém o rapaz não se mexia, não se incomodava. Olhos tristes jogados ao mar, náufragos de fuga, transbordantes de súplicas que eu não compreendia. Seriam lágrimas aqueles dois brilhos secamente apagados pela ventania cada vez mais forte?
Finalmente abri a boca, queria chamá-lo, a maré subia rápido, em poucos minutos seria impossível permanecer ali, aqui. Nada disse, no entanto. Estranhamente havia me esquecido de como dizer, falar, sequer balbuciar qualquer ruído decodificável. Estático, o rapaz era envolto por marolas ondas que se transformavam em vagas, estrondando violência contra aquele ser desafiador no seu caminho.
As roupas encharcadas, o rapaz afundava no que agora não tinha mais limiar: era tudo água, mar, chuva, tempestade tropical. Eu também molhado, queria atingi-lo de qualquer modo, mas a indecisão fez com que minhas pernas ficassem presas na armadilha movediça que me tragava fundo. Sabia, então, que jamais conseguiria chegar ao rapaz, tirá-lo de sua inércia, mesmo que à força, e salvá-lo de si mesmo.
Lentamente, observei a progressão de sua desgraça, imóvel, irresoluto. O desespero revolvia meu estômago, enquanto o rapaz desaparecia sob aquele tapete salgado e furioso. Melancólico, não se importava, fazendo o que fosse para permanecer na mesma posição inicial, o rosto encharcado. O temporal agravou-se, e não o pude mais ver.
Quando dei por mim, encontrava-me novamente em meio à platitude da paisagem azulada, o sol brilhava forte, e as coisas todas ressoavam calmaria. Não sei quanto tempo se passou, mas a imagem dos cabelos do rapaz, boiando confusos sobre o corpo já submerso, entranhou-se-me na memória. Podia ter sido um sonho, disse, convulso, não reconhecendo minha própria voz...


para Jaya, que me fez encarar-me ao espelho
(novamente...)
- música do post: "you've got to hide your love", The Beatles