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9.3.09

mariazinha

...Mariazinha nascera pra ser pobre: era feia e necessitada. Feia por ser necessitada, já que sempre lhe disseram que a necessidade é feia. Na verdade seria rude, pra dizer o mínimo, falar assim de Mariazinha. Porém aqui nada se inventa, muito pelo contrário: era assim mesmo que ela mesma se via.
Acordava cedo, trabalhadora que era. Pegava dois ônibus, uma linha de metrô e mais dez estações de trem, além de uma boa caminhada de meia-hora até o serviço: pesado, insalubre, interminável. Mas isso sou eu quem diz: Mariazinha não diz nem reclama de nada, nunca reclamou. Mariazinha nascera pra ser santa. Mas demora, então não. Porque ela tem mais o que fazer.
Mariazinha vivia sozinha. E diz-se “vivia” com toda a propriedade do termo, pois não tinha pai, mãe, irmãos ou marido. Pra falar a verdade, nem nunca namorado teve. Era religiosa. Ninguém sabia de sua história de vida. Aliás, mal sabiam que “vivia”. Quanto mais de sua história. Sozinha.
Mas num dia qualquer: Aconteceu. Descendo do segundo ônibus encaminhando-se para a estação de metrô apressada pra não perder o trem pra não ter de andar ainda mais rápido por causa do seu serviço pesado insalubre interminável de repente estancou: um carro veio em sua direção e ela não o vira. Quase foi atropelada. Coração a mil em poucos segundos. Ainda foi xingada pelo motorista. Palavras de baixo calão. Fez questão de não entendê-las. Mariazinha nascera pra ser pura. Finalmente o viu: de início não compreendeu – achou que era pecado; então não deu importância. Afinal, tinha de manter a sua pureza intacta.
Pegou-o. Estava sujo da lama da chuva do dia anterior. Nem precisou conferir até o final: estava premiado. Estava ela mesma premiada. O bilhete lhe conferia o ingresso a um mundo totalmente novo e desconhecido. Nem sabia o que fazer com tanto dinheiro. Sabia apenas que o possuía. Mariazinha possuía o bilhete que por sua vez a possuía. Primeiro namorado. Primeiro beijo. Primeiro orgasmo. Primeiro prazer. Primeiro. Gemeu baixinho com medo de assustar-se a si própria em seu novo território. Ela-mesma. Antes disso “vivia”. Agora vivia. Sem aspas. E lhe bastava, pois a liberdade foi tamanha que:
Correu como potro livre-leve-solto numa pradaria toda verde e plana e ininterrupta como seus cabelos-crina agora também soltos na felicidade fácil que brotara dela toda. De face corada chegou ao banco, o vestido de chita manchado do sangue de sua recém perdida virgindade. E então trocou aquele pedaço de papel enlameado de mundo e de pecado por um monte de papel ainda mais enlameado de mundo e de pecado, entrada livre que tinha agora entre Céu e Inferno. Aliás, podia ter dos dois se quisesse. E queria, caftina que se tornara em meio à sua própria mutação. Sentia-se plena, realizada, prostituída de bem e de mal. Era a vida, finalmente a vida. Mariazinha era mulher da vida.
Não voltou mais nunca mais ao barraco onde morava. Aliás, já nem mais se lembrava de que um dia ali morara. Também nunca mais dois ônibus uma linha de metrô e dez estações de trem além de uma boa caminhada de meia-hora até o serviço. Que serviço? Pesado insalubre interminável??? Never!!! Mariazinha agora fala inglês fluente através de seu tradutor, Robert Robertson, pois agora só compra onde se tenha de falar obrigatoriamente em inglês. Quanto ao resto? Bem, dois Mercedes na garagem e um motorista chamado Jean-Luc, além de adquirir uma linha de metrô e dez estações de trem. Só porque não tinha mais o que fazer com o seu tempo livre, livre que era. Mariazinha era mulher livre. Aliás, já nem era mais “Mariazinha”: chamava-se Little Mary, assim em inglês, assim em itálico, que era mais fashion. Contratou alguém até pra assinar o seu novo nome por ela, já que não sabia escrever nem em português. Ah, também era Róberti (como ela o chamava e sem sobrenome mesmo, que isso ela não acertava fosse como fosse) quem pronunciava o seu novo nome, porque assim era mais bonito... (mentira dela, que mal conseguia dizer 33 ao médico, quanto mais Little Mary).
Vocês podem notar que eu não tenho mais pena de Mariazinha (recuso-me a falar e/ou escrever o seu novo pseudonome novamente), se é que mesmo algum dia tive. Creio que é apenas mais uma de minhas personagens que saiu de prumo e perdi o controle. Talvez por tê-la criado tão ingênua e tê-la solto em tão mundo cão como o meu, o seu, o nosso, mas que não o dela. Se eu não tivesse posto aquele bilhete naquele lugar... E se eu não tivesse posto aquele bilhete naquele lugar? Besteira pensar nisso agora. Aconteceria do mesmo jeito. As coisas são como elas são. E cada um sabe de si. Ou pelo menos deveria. Senão quem? Ninguém.
É, Mariazinha não sabia de si e eu, que podia saber dela por ela não poder, não quis. Achei que seria melhor assim. Sem pai nem mãe nem irmãos nem marido. Nem namorado. Virgem que era de si-mesma para si-mesma e para tudo-nada. Mas então o bilhete. O ingresso que a levou para o mundo e a tirou definitivamente de mim. Enquanto aqui divago essas besteiras com vocês, Mariazinha se diverte em sua sábia ignorância de gente que tem todo o tempo do mundo nas mãos, que pode muito bem manipular a fortuna como bem quiser, desafiar Cronos, Zeus, a mitologia inteira e o diabo que te carregue!!! A mesma (ou talvez outra) que outro dia de manhã rezava dois padres-nossos e uma ave-maria tomando o cuidado de não errar que era pra dar sempre a mesma soma: três: trindade: em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. Agora não, nunca mais. Olha lá, entupindo-se de chocolates da Bavária, caviar dinamarquês, vinho italiano, Chanel da cabeça aos pés, sex drugs & rock’n’roll, baby...
Não, chega, isso já foi longe demais. Mariazinha tem agora tradutores de árabe até o último dos dialetos que se fala nos confins do Zimbábue. Possui todas as riquezas e pobrezas do mundo inteiro, porém não é dona de nada. Nem de si-mesma. Muito menos de si-mesma e de tudo o que compra por falta de tempo porque esse ela já gastou todinho mas quer mais por falta de espaço que, aliás, também já é todo seu: mundo, Via-Láctea, o cosmos inteiro e aos pedaços: universo: Big Ben. Vácuo. Isso era o que era: vácuo. Mariazinha era puro vácuo.
Ah, quer saber, cansei-me dessa estória, até porque não mais me restou espaço pra nada. Pra falar a verdade, nessa estória tudo não me resta mais: Mariazinha possui. Qualquer coisa tem a marca do pecado enlameado num bilhete escondido numa sarjeta quando foi quase atropelada por um carro cujo dono lhe disse palavras de baixo calão. Agora ela entendia. Fazia questão. Uma vez que possuía tudo e nada.
Mariazinha nascera pra ser rica: era feia e necessitada. Necessitada por ser feia. Por dentro. E por fora também. Dizem que ela lembra muito a Marilyn Monroe. Concordo. Não se pode ter tudo, afinal de contas...


livremente inspirado em Macabéa, personagem de Clarice Lispector
- música do post: "lapinha", Elis Regina

28.4.08

ressaca de mim

“O que não se sabe pensar, se vê!”
Clarice Lispector



...olhava o mar com olhos de ignorante. Olhar que não enxerga além de seus palmos o que está sendo visto em processo de seu campo de visão. Limitadamente não-humano. Olhar de cão. Que vê. Não entendendo, não entender é preciso. Não pensar é de extrema necessidade. Ver sim. Olhos cegos surdos mudos. Mas verdes. Rebentando junto às ondas lá embaixo. Parado no pico de uma pedra verde de limo. Lá do alto a possibilidade de um escorregão direto ao infinito. Às ondas verdes, qual o meu olhar, rebentando lá embaixo.
É assim que gosto do mar, de ressaca. A espuma que branca borbulhante levanta o odor da maresia que me enche todos os poros, que me entope de prazer, torpor louco a que me entrego todo taça recebendo o líquido champanha cristalino. Braços abertos na brisa fria que me leva pra longe bem longe dali, enquanto a chuva me despoja de mim mesmo, minhas roupas encharcadas de que não mais preciso. Só do mar: necessito de sua energia na noite tempestuosa como um feto necessita do líquido vital de sua mãe. Filho do mar, isso é quem sou. Isso: quem: eu. Minha identidade é marinha. Meu signo aquário. Ascendente em peixes que nadam na torrente esverdeada que corre por meus olhos adentro até o fundo de meu espírito e que depois, cachoeira, re-sobem no fluxo de minha consciência até meus dedos dos pés e mãos e olhos e cabelos extremos todos pra fora de mim. O que está fora de mim está dentro de mim. E vice-versa. Porque sou da natureza e tudo o que me chega dela na verdade sou eu mesmo. Então não me procuro mais, pois sempre me teria achado se, quando perdido, houvesse tido a idéia de me reconhecer nas coisas que outrem que portanto eu. Não me reconhecia antes porque não me via. Me idealizava. Idealizar-se é projetar-se. E todo “projetar-se” é falso pra sempre. Não. “Ver-se”. Isso. É isso o que falta. Faltava. Pois em mim já me vi. Não preciso de reconhecimentos. Tenho dois olhos que ignoram, verdes, a minha própria razão, anulando-a. Precisar de um pensamento, não o preciso, a não ser muito pouco: tenho também um terceiro olho num ponto imaginário que transcende a si próprio e a mim junto a ele, indo-me exatamente na direção contrária de todo sentido.
O mar, a chuva, a brisa fria, a pedra cheia de limo e eu, todos ondas e espumas rebentando lá embaixo, misturando-nos uns aos outros congelados como lâminas finas e escorregadias e afiadas. Cortamos a realidade em duas três quatro cinco dez cem mil milhões bilhões e sem-número de vezes e maneiras, dividindo seus significados e símbolos chegando a somente um único signo:
...na ressaca de mim percebi que sem roupa a praia brotava nua de areias e brilhos da lua que cheia lhe tirava dos braços o mar que nascia em ondas como recém-nascido que chora pelo barulho da rolha do champanha estourando de bolhas e espumas cristalinas petrificadas de limo que escorrega ao infinito na lufada da brisa que sem pé nem mãos nem cabelos escorre no refluxo de uma cachoeira que nasce da estrela cadente que caiu em pranto que se misturando às ilusões projetou de si mesmo um espelho quebrado em sete anos de azar do terceiro olho que a isso transcendeu às suas vistas a visão que via embaçada pelo rodopio louco de uma voz de pássaro sem asas porque voa pra dentro de si e de fora havia rouquidão até recomeçar mais alto sem alcançar aquele ponto inimaginalmente imaginável desaparecido numa aparição de sua própria vontade que sem ser vista não existia porque pensada porém de tudo isso restaram os restos daquilo que não dito ouvido ou visto e que permanece berrando em silêncio pra não incomodar o incômodo de alguma vez ter dado chance de expressão a algo inexplicável que inexorável não se explica não se sente não se sabe não a não ser pelo trecho que pego pela metade se revela pedaço inteiro porque todo pedaço inteiro é tudo mas que não é nada por falta de espaço que nessa noite não se acaba por medo do sucesso de recomeçar mas sem medo de existir verde e de ressaca de si...
E foi quando senti as algemas frias se fecharem num clique às minhas costas. Pessoas outras aglomeradas na calçada da praia de Copacabana, umas rindo, umas a chorar, umas a gritar, umas a jogar pedras, umas. As pessoas sempre umas enquanto eu nenhuma. Não entenderam não-entender. Procuram razão nas coisas, projetando-as. Sombras do próprio reflexo que são. Eu não. Sou mesmo o não. Mas verde. Iluminando de esperança a viatura de sirenes vermelhas e os homens de farda cinza e as pessoas outras e umas de branco azul amarelo vermelho laranja roxo anil rosa e todas mais, vendo em cada indivíduo todos os indivíduos e tudo e nada que há, através daquele signo que em vão tentei ver em completude, porque não se capta nem mesmo pela ignorância de não-saber, reconhecido somente num trecho entre reticências e sem possibilidade de nexo: o signo. O signo que é a natureza, a praia, o mar, as ondas, a chuva, a brisa, a noite, a estrela cadente, a pedra, o limo, as roupas, eu, as pessoas, os homens de farda cinza, a algema, a viatura, as sirenes, as cores... O Infinito. Não estou louco. Estou de ressaca de mim...


*******

...quando a gente acha que tudo tá perdido, um broto de esperança surge à beira da sacada, segura a nossa mão, enxuga as nossas lágrimas e jura todas aquelas falsas promessas em que tanto queríamos acreditar...

- música do post: "o bêbado e o equilibrista", Elis Regina

24.1.08

1 outro do msm

...na verdade, o título desse post seria "2 kras". Porém não queria que ninguém entendesse ou sequer achasse que era por alusão ou alguma analogia à trama global. O que quero dizer com esse texto é simples (e quem sabe por esse motivo, complicado...): todos nós sabemos que não somos apenas um só indivíduo, e sim um amontoado de "eus" diferentes que, apesar de dividirem o mesmo teto (ou seja, a nossa própria cabeça), muitas vezes não compartilham das opiniões, gostos e, em alguns casos, até o caráter e a personalidade desses "outros" que, em última instância, são partes de nós mesmos - e com os quais freqüentemente brigamos, discutimos e queremos ver pelas costas. Sendo assim (e admitindo que grande parcela dos que me lêem pensam de maneira mais ou menos parecida), concluo que não seria surpresa admitir essa realidade - ou identidade? - partida pra todos. Claaaaaro que sim, certo? Nem sempre. E digo isso porque experimentei na pele o que é dar de cara com um outro do mesmo. Explico-me: tenho dito nos últimos posts que sofri uma decepção muito grande, patati patatá, e que tava completamente surpreso com isso, coisa e tals... massss, parando bem pra pensar, me dei conta de que tava P da vida não com aquela pessoa que aprendi a respeitar, amar e por quem me apaixonei há tempos atrás. Eu tava possesso era com uma outra face que eu não conhecia dessa mesma pessoa, e que se revelou justamente sob um momento de estresse, na pressão e no calor de uma briga requentada por sapos engolidos que jamais se tornaram príncipes. O resumo da estória? Bom, num primeiro momento, ódio, raiva, rancor e tudo o que de pior se pode desejar a alguém (e o que não se pode também...). Depois dos efeitos, raios e trovões da tempestade, no primeiro momento de calma vi que estava completamente equivocado. Eu não tava daquele jeito por causa do "outro" que eu ainda não conhecia... aquilo era "simplesmente" orgulho ferido, pelo fato de ter sido supostamente "enganado" por quem num belo dia passei a confiar tanto. E não, não fui. A pessoa que conheci e que amei e compartilhei momentos inesquecíveis da minha vida continua lá, intacta, em algum lugar (e principalmente nas minhas lembranças). Esse "outro" é somente 1 dentre dezenas, centenas ou milhares de faces que todos nós temos - inclusive mesmo essa outra pessoa. O problema é que talvez não nos damos conta de que tudo o que se passa conosco e nas nossas cabeças perturbadas também pode se passar com os demais, nas suas próprias mentes neuróticas. Afinal de contas, além de sermos conceitualmente todos iguaizinhos, ou seja, humanos cheios de virtudes - e também defeitos -, quem ainda duvida sermos igualmente um amontoado de descargas elétricas cujos curtos naturais são capazes de produzir (d)efeitos diversos? Freud tá aí, quem sabe explique... Enfim, depois de todo esse papo enrolado e pretensamente pseudo-filosófico, deixo claro que tô com a consciência limpa e tranqüila, sem remorsos nem nada. É sério, tanto até que já consigo me dar bem com o tal "outro", nos falamos, conversamos sobre trivialidades, desejamos "boa noite" e "te cuida" mutuamente. Por quê? Porque sei que não falo com aquele outro alguém que um dia conheci. Esse tá morto - ou seria melhor dizer escondido? Não sei, apenas que não sou tão frio e racional assim. Às vezes tenho recaídas loucas, vontade de me humilhar novamente em busca de um "eu" que talvez nunca volte pra mim, de exigir, mandar, gritar que retorne e me ame imediatamente, como se fosse uma criancinha mimada. Tudo dentro da normalidade, massss, bem lá no fundo, sei que de nada adianta. É muito sofrido esquecer. Por isso já disse logo de cara que nada aqui se parecia com novela. Muito pior: é a vida...

- música do post: "atrás da porta", Elis Regina