15.3.08

pelo nada um fio de lã

“Será que vale a pena abrir a janela, escancarar a alma e enfrentar o mundo?”

...assim que se vai nessa noite sabe-se que não há mais jeito. A repetição é sempre especular e sempre pra baixo. Não há como subir, não há como se salvar – e pra quê? se já não há serventia nem pros sapatos gastos que não fazem barulho de passos – de nada? No silêncio te procuro não como quem quer escapar; sei que a queda é iminente. Questão de tempo (ou de querer, simples coragem...). Te procuro como a face outra dessa que enxergo aqui por dentro, com esse meu terceiro olho furado e vazio que por muito tempo acreditei ser a solução de tudo. Da mesma forma como não te encontrei, nem em sorrisos nem no cuspe que ainda escorre pelo meu rosto, não vislumbrei aquela face minha que tu me deste.
E as folhas agonizam como as cinzas das horas que se findam no relógio opulento e sem ponteiros. A única luz possível é um rastro de rastilho da lã que, pólvora, estende a explosão anunciada lá bem longe de onde estou – pra onde vou. Daqui a pouco, agora não. Segure-se, segure-se bem firme ao corrimão. Não queiras cair antes da hora, despencar ante o segundo exato da queda-livre ensaiada. A simetria é absurda, envolvente, quase me hipnotiza em seu mimetismo próprio. Não querias saber a sensação? Não querias, de uma vez por todas, acabar com a dor? É simples. Eu sei. Esperemos, pois. Que ao longe a vista embaça, as lentes sujas, o mundo estagnado e as minhas lentes sujas, ou esse mundo de braços retorcidos e pelados? essa natureza morta-viva, essa penumbra de frio e solidão. Não me desampares agora, não há mais ninguém aqui. Aqui. Aqui não há mais ninguém. Tens razão. Mas é preciso que se enfrente tudo por si mesmo. Não há fuga, não há jeito. As coisas clamam por ti. E que venhas tu, às coisas, que elas te esperam, que te espero. Não aí. Não daí onde estás. Não. Vem a mim.
Não escuto o clamor. Só o silêncio preenche o lugar, esse lugar que é sempre o mesmo, até nunca mais. Nem medo – não, não há medo –, apenas essa sensação de corte fino e a pele enrugando-se e descascando-se até que pequeníssimas ranhuras brotem em sangue, rusgas de meu corpo com o corpo do mundo, que rejeita essa matéria sua como feto abortado de minha mãe, da primeira mãe, de todas as mães. Há sempre o momento em se regurgitam os abscessos purulentos que incomodam à carne alheia, à túrgida carne da natureza que se nega ao colorido que lhe mascara o sentido último, a pulsão primeira: a liberdade. Contudo a liberdade é cruel, amarga, feia, só e não serve de nada. Ninguém a quer. Não a quero.
Apanho o fio. O bolo ainda é pequeno. Posso vê-lo meio sem graça, envergonhado e verde um pouco mais abaixo. E confortável. Aquele novelo de lã em verde bolo transmite o acalento de um abraço teu, apertado, amigo, paixão de graça descoberto em simples desenrolar, movimento contínuo, abrir de zíperes, botões espatifados no duro e sujo chão de concreto. É lama, não sujemos as meias brancas, não maculemos o nosso segredo só nosso, não deixemos nós que os outros, à espreita, porque sempre os outros à espreita, façam razão de nossos atos, maneiras tão nossas de ser. Danem-se. Um fio de lã verde, você. As coisas clamam por mim. Me espera, tô indo. O vento bate em minhas costas, zéfiro, violento, cambaleio qual bêbado por ti, só naquele fio de lã me seguro, e só por ele – você – até ti, me guio. O novelo corre veloz lá pra baixo por onde as vistas embaçam e os ruídos misturam-se ao murmúrio das folhas que viram cinzas e cobrem o manto rubro escarlate do término num baque seco, gritado, sereno...
- música do post: "esquadros", Adriana Calcanhotto

10.3.08

bicho-gente

...dos vestígios da causa, efeito. Então o metrô parou. Saiu. As outras estátuas humanas também. Pelo mesmo buraco, caminho, resquício de passagem passavam passageiros espremidos de si-mesmos, comprimindo sensações em kbits que era pra caber tudo, bem compactadinho, des-frag-men-ta-do. Coisas a fazer, coisas que são. Sem se deixar abater. Não, os circuitos não agüentariam sobrecarga. Então curto-circuito.

Aconteceu.

E de repente convexo. Riu-se quando ele disse. Convexo convexamente num estreito que não Bósforo mas assim estreito, dois de cada vez – à direita, pros que param e cedem passagem à pressa alheia. Em todo lugar do mundo é assim. Sim senhor, me desculpe, pois não, passar bem (mal). Sorriu um só-riso que nem da outra vez. Convexo, pensou, sentindo aquela mesma graça, porém já um pouco desbotada, de antes. Durante agora depois. Já passou. Hoje em dia é tudo... Nada, da mesma forma que antes-agora já era pra ser-indo antes-agora-depois. Não. Isso não é coisa de gente. Nem de bicho. Bicho-gente. Ser humano? (O) ser: entidade do mundo biossocial, quer mais abstrata, quer mais concreta. E mais ou menos? É, pode ser. Todo mundo e ninguém se dá conta da graça dos degraus da escada rolante subindo subindo subindo até o ponto onde engole a si mesma a subir-se engolir-se sempre num movimento eterno maquinal funcional pragmaticamente prático. Nem se olham. Ninguém mais se olha no olho. Parecem todos subindo subindo subindo até o ponto onde engolem a si mesmos a subirem-se engolirem-se sempre num movimento eterno maquinal funcional pragmaticamente prático. Igual à escada rolante que só rola o rolo desse abatedouro pró-e-contra-humano fabricado por essas entidades (mais) concretas do mundo biossocial. Humanos. Não perceberam ainda porque seus circuitos transístores de plasma precisam de lubrificação extra. E na cabeça que processa só as contas a vencer. Faz de conta até o que é de graça. For free, for all, forró. E os robozinhos dançam suas mesmas danças robóticas até que, robôs integralmente, novamente na segunda-feira recomeçam do começo ao fim. Hoje é sexta-feira, convexo, ninguém achou graça. Minha vez de passar pela catraca...

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...tanto a Andréia, lá do seu "Relatos de uma guerra pessoal", quanto a Aninha, do seu "Pensamentos da poetisa", resolveram premiar o inacreditável mundo de alex e! com mais esse selinho suuuuper legal!!!!! Ambas afirmam que "esse blog não me sai da cabeça" e eu começo a acreditar viu... (ou será que foi só 1 coincidência as 2 lembrarem aqui do mundo ao mesmo tempo...? bom, como eu não acredito muito em coincidências...rs). Enfim, agradeço a ti, Andréia, e igualmente a ti, Aninha, pela lembrancinha muito da bacana, viu!!! Um beijo bem grande pra vocês, queridas!!!...

(os blogs que "não me saem da cabeça" indicados ao selinho são:

- "Dominus";
- "Deixa eu brincar de ser feliz?";
- "É só saudade...";
- "Caneta vazia";
- "Chá das cinco"...)

- música do post: "encontros e despedidas", Maria Rita

5.3.08

crochê

...No braço a sacola pesava de ovos e verduras. No meio da rua as próximas contas a pagar. Veias azuladas pelo esforço e a cabeça levemente dolorida pelo cansaço. Dessa vez nem dinheiro pro cigarro havia sobrado, besta constatação. Distraída no sinal aberto, a buzina pegou a mulher de surpresa em seu vestido estampado. Quem diria, as pessoas riam escondidas, riam dela? quem diria que hoje aquela mulher andaria por aí de óculos de grau e vestidos estampados. Ela escutava. Ela via. E sujos, imundos da poeira do movimento do dia. Que não muda, impregnado nas roupas, impresso no rosto. Marcas, manchas, furos e rugas acumulados dentro da máquina com amaciante.
Do outro lado um longo destino se descortinava em meio à multidão de fim de tarde. Mas não tinha como passar. O cansaço era muito grande e não havia espaço pra ela, tão mulher, tão pesada de suas angústias, de suas ânsias e desejos jamais realizados. Aonde ela estava indo? Tão cedo pra chegar em casa, tão atrasada em relação a si. Tanto o que fazer, meu deus. E quase já não há mais sol. Melhor correr, já que fica difícil enxergá-la, tão comum, tão indiscernível, dentre todos que passam na mistura das gentes num início de noite, período de dúvida e olhos cada vez mais fechados, sonolentos.
No entanto a distância é grande, é longe e pra sempre. Aquela mulher no perigo de se apequenar e ser engolida, ou quem sabe pisada até esmagar-se na turba lodosa. Sem saída, havia apenas um resto de trilho, um esboço de caminho o mais curto, o mais fácil – frágil – a seguir. Não tinha medo de se humilhar, que nessas horas ninguém repara, ninguém nota. Os barulhos são constantes, as pessoas tão despertas em seus mundos tão particulares. Me-ga-lo-ma-ni-a. Há muito a mulher não pensava. Nisso, em saber o que é isso. Em sentir correr-lhe nas veias justamente isso. Pura loucura, pura substância. Houve uma época em que sim, havia importância em não se importar e, num longo suspiro, expirou suas dores de tal modo que nem mesmo o cigarro fazia falta. A baforada que deu espantou a cefaléia, afinou o sangue e deixou de lado a sacola.
Na possibilidade de ser livre novamente, aquela mulher apostou as últimas fichas que encontrou pela calçada suja. Sim, faz muito tempo. Sim, agora tudo mudou. Sim, está tudo tão diferente. Porém a mulher sabia que, de dentro daquele corpo, na sensação embriagante da câimbra de seu ser, havia forças pra gerar naquele útero um dia fértil a força de vida de um sorriso dourado de girassol. Gira sol, gira mulher, gira mundo até a fonte cristalina, até o momento de êxtase, cabelos longos soltos ao vento, ao sabor da doce maré, flutuando na onda de paz e amor, dedos em v, flor no cabelo, qual o berloque rodando, pendurado ao pescoço jovem mordido pela boca vermelha dele, dele que fora a sua paixão, dele que um dia sumiu depois daquela noite perfeita, louca e de pura ressaca no dia seguinte. Dele de que nunca mais viu os pêlos, os longos cachos, o corpo rijo, a camisa florida, os poemas endoidecidos e altos, tão altos quanto o volume do Chico no toca-fitas – shhhh, abaixa que é proibido – aquela coragem, aquele destemor, aquele brado eterno que pra sempre sumiu. Nunca mais teve notícias, nunca mais aquela voz rouca rapidinho no orelhão, que era pra não perder a ficha. Perdeu. De repente o sonho acabou.
Não queria passar por maluca pros pais, família & companhia Ltda., e assim nunca mais fumou, a não ser Carlton, encaretou, tomou jeito, fez faculdade, mestrado e doutorado, conheceu um advogado promissor, só que bem mais velho que ela, entradas pronunciadas, casou-se, a lua-de-mel foi uma droga (o cara brochou mas tudo bem ele sempre brocha), teve dois filhos (nos únicos dois minutos que o cara não brochou, um pra cada um), a promessa foi pro brejo, o apartamento é de aluguel, nunca fez carreira, os diplomas esquecidos na poeira do fundo do armário, mulher minha não trabalha, grandes coisas, vivem na merda, a filha é lésbica, o filho é gay, melhor assim não me dão netos, tô velha, provavelmente com câncer, sente tumores crescerem dentro de si, nutrindo-se de sua matéria deteriorada, apossando-se de seu útero. O que mais posso gerar?
Alguns pássaros cantavam. Não, eram rolinhas que arrulhavam. Feias, tristes, cinzas, sujas. Não havia ninguém na rua. A praça deserta. Era frio, era inverno, o chafariz entupido, resfriado. Passara em claro a madrugada. Não deram por falta, a comida tava congelada mesmo. Tomou a sacola do chão. Os ovos quebraram, as verduras fediam. O sol, tímido, em vão iluminava a mulher naquela pontinha de concreto...

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...a sempre fofíssima Jaya, lá do seu "Deixa eu brincar de ser feliz?" conferiu ao mundo aqui outro selinho de qualidade. Ela afirma que esse blog é "total force" e eu agradeço de montão, querida... o selinho e o carinho que tens por mim. Beijão pra ti!!!...

(...os blogs "total force" que indico são:

- "Pensamentos da poetisa";
- "Através do meu espelho"...)

...outro prêmio, dessa vez conferido ao mundo pela gentilíssima Cris, lá do seu maravilhoso "Dominus". Ela diz que esse blog de quem vos escreve "proporciona sensações alucinógenas"... ai, que medo...rs Achei super divertido esse selinho. Muito obrigado mesmo pela lembrança, querida mineira. Um beijão carioca procê!!! Ahhh sim: a Cris também falou que o blog aqui é "parada obrigatória", masssss como o mundo já havia levado esse selinho da Aninha, lá do seu "Pensamentos da poetisa", achei por bem não repetir né. Porém, Cris querida, teu nome tá lá no selinho também, por mais essa lembrancinha. Outro muito obrigado e outro beijo carioca pra ti, viu...

(...os blogs altamente "alucinógenos" que indico são:

- "Jornal da lua";
- "Pois já é hora de pôr recordações para fora"...)

- música do post: "think (freedom)", Aretha Franklin

29.2.08

descobrir-se

(...também poderia ser: do(s) dedo(s) preso(s) na dobradura da porta; ou: a verde queimadura solar que arde em girassol; ou ainda: descobriu-se num beijo traiçoeiro que lhe matou a carne e enlouqueceu-lhe o espírito...) Escolha, sabendo que tanto faz...

Entrou e fechou a porta atrás de si. Mas de certo modo era como se tivesse ficado do lado de fora. Não ele, como um todo. Talvez alguma parte sua. Assim como se houvesse um dos dedos seus entre as dobraduras. Nesse caso haveria dor. Não há nada, porém. Arrastou-se deixando as costas roçarem a parede até o ponto em que seu corpo formou um ângulo reto em relação ao chão. Reto: o ângulo; ele: obtuso. Abrindo-se em relação... Não saberia dizer a quê, mas era algo novo – sim – algo totalmente diferente se apossara de seus domínios mais guardados, de seus segredos mais secretos. Alguma coisa havia de diferente, ou melhor, de não-igual. E isso após o beijo.
Aquele beijo único mudara a sua vida. Não seria mais o mesmo; não era mais o mesmo. Arrastado em ângulo reto com as costas contra o branco da parede se sabia cada vez menos. Como se algum dia tivesse se sabido. No entanto agora ainda menos, menos. Menos. Tão menos que de repente mais, mais. Mais. Assustou-se. No início não. Mas assustou-se quando se percebeu desse jeito, tão revelado de si. E não por conta dele. Fora algo de fora, e talvez fosse isso o que o espantava tanto: de fora, de outrem, da boca dos fluidos da alma de algum outro. E que ele mal conhecia. Nunca havia feito antes. Isso. De beijar, não. Mas de beijar o desconhecido. Era algo como entrar em contato com um pedacinho do Indizível, da Essência de seu próprio espírito conjugado em carne. Unindo a sua carne àquela outra carne chegara ao cúmulo de seu próprio espírito: a conjunção de sua alma consigo mesma se fez tão intensa e tão singela ao mesmo tempo paradoxalmente que doeu doeu doeu tão forte que lhe deu uma falta de ar tamanha. Desfez o ângulo reto que lhe comprimia a espinha e correu à janela. As cortinas estavam fechadas. Deu à luz o seu brilho. Não dele, mas da própria luz, através do sol aceso e vespertino – afastando como a um louco a sua (in)consciência as cortinas, viu-se todo iluminado pela primeira vez: pela primeira vez a sua inteireza havia sido revelada como foto antiga, em preto-e-branco com charme de technicolor. O verde de seus olhos ardeu como o vermelho do fogo. Também havia o fogo, a paixão, o amor, o prazer, o puro tesão no olhar, voltado para a luminosidade até os confins de não-saber-onde. Ter na iluminura a salvação de ver-se a si próprio é como um girassol que roda ao redor da quentura leniente do sol.
A sensação novamente em seu corpo, em sua carne, por dentro. Quente como o sol. Queimando como o fogo mais profundo de seu ser, colorindo de verde o seu próprio sangue. Ah, o choque dos dentes, o sabor da saliva escorrendo ele adentro, a língua, as línguas, o movimento das mãos descobrindo bocas, lábios se tocando, se mordendo, comunhão mais-que-perfeita de carne & espírito. Mas não. Todo aberto, todo dado, todo claro não podia ser. Qual a vantagem de se ter por inteiro, assim, na ignorância impávida de uma rocha? Ele se sentia qual uma rocha. A diferença, porém, era que ele sabia ser uma rocha. A rocha é rocha sem saber-se de si. Não há um si. Nem possibilidade.
A possibilidade. Tantas coisas ele podia ser. Imaginara tantas vezes. A certeza de agora lhe tirava essa chance. Ou todas as outras. Ele estava certo do que era. Ali, parado em frente à janela aberta que dava pro sol queimando de verde a face: sabia-se. Com certeza. E isso não podia. Não queria. Antes, sim. Era sedutora a idéia de possuir-se por inteiro, ele que sempre se achara tão perdido em meio às suas inúmeras partes. Porém o resultado era plenamente insatisfatório. E a culpa disso era do beijo. Daquele beijo. Único que lhe fez também único. No meio do caminho um gole de saliva. Estranha. No meio de seus fluidos uma língua. Estranha. No meio de sua alma, ele-mesmo. Estranho. E pra sempre seria assim. Vendo-se como era, sem análises ou racionalismos que morreram todos naquele instante ínfimo de romantismo, ou, melhor dizendo, de não-pensar (sabe aquelas coisas doidas que a gente faz e depois se pergunta “meu-Deus-onde-é-que-eu-tava-com-a-cabeça?”). Pois é. Ele não pensava nisso. Aliás, não pensava em nada. Tinha no fundo de sua razão aquilo que deveria fazer. Um algo que lhe soprava por dentro dos ouvidos. Só que mais por dentro ainda. Decerto não adiantaria furar os tímpanos. Não. Pois agora os sussurros eram gritos e lhe apertavam a cabeça contra todos os seus ossos. Gritou, e gritou o mais forte que pôde; seu cérebro esmagando-se contra o crânio, seus músculos todos reclamando um vazio que não lhes podia oferecer. Como fosse todo fraturar, debruçou-se sobre si num ato louco, gemendo, uivando, urrando como besta. Até que num clarão de sua mente aos desesperos surgiu-lhe a derradeira e singular opção, posto que única, transmutada de certeza una: ao ver-se através daquele beijo, desnudou-se-lhe todo de suas máscaras e de suas fantasias quanto a si próprio, e isso não agüentava, não aturava se ter por completo, pesava, doía sobremaneira, tanto que seu corpo físico lhe reclamava sobre algo que nem ele nem sua (des)matéria poderiam suportar. Por impossibilidade, não por falta de escolha, pois que são diferentes: com os próprios dedos, fatigado de sua presença, arrancou de súbito os próprios olhos. Ardia e escorria todo em sangue pra fora pra fora sempre pra fora junto ao líquido verde que o sol queimara e, espesso, misturara-se à sua substância de gente.
O desespero só fez aumentar: na ignorância de saber-se por completo, não reparou que seus olhos de homem, de humana pessoa, é que nada lhe diziam: havia a sensação de si-mesmo impressa na alma, por conjugação com a própria carne. Através daquele único beijo uno viu-se por completo, obtuso em ângulo reto comprimindo as costas contra a parede branca. E não suportou. E não entendeu. Porque dói, e doeria cada vez mais. Cego do mundo, vidente de si, num ato final atirou-se sem tatear nem pestanejar pela janela aberta, sem hesitações em pleno dia de sol, girassol rodando num rodopio maluco até o chão de cimento. Cinza. Quente. Aconchegante. Finalmente a paz. Do corpo. Pois o espírito, pra sempre descoberto, não se encaixa em seu não-existir.
Descobrir-se é como bater a porta e deixar um dedo na dobradura. Mas não há dor. Então não há nada. Apenas o sol que queima ardente um fogo verde e desesperado pra dentro e por dentro da gente.

- música do post: "meu mundo caiu", Maysa

25.2.08

e kem disse q era fácil?

...parece que quando dizemos "mudei" tudo se transforma. E é claro que não é bem assim. Pra nós. Pros outros. Masss a cobrança está lá e só aumenta. Por quê? Simples: porque nós - e também os "outros" - desejam que cumpramos com as nossas obrigações diárias e, dentre elas, estão as nossas (malditas) promessas. Nem incluo aqui as tais que fazemos no final do ano às 23:57 do dia 31 de dezembro. Ou mesmo aquelas que reiteramos durante janeiro inteirinho e que, assim como as férias - e o carnaval... - terminam em março. Falo das GRAAANDES promessas. Dessas que, com caps lock, exagero e tudo mais, são capazes de modificar as nossas vidas pra sempre pra sempre pra sempre pra sempre......... e o eco torna-se tão intenso que, realmente, acreditamos nisso tudo. Eu já jurei várias e várias coisas por várias e várias vezes pelos maiores e menores motivos... Se já deixei de cumprir algumas? Bom, deixo o meu orgulho de lado e digo que: sim, já deixei. Mas claro... afinal de contas, somos todos seres humanos, certo? Errado. Pelo menos pra mim. Não deixo de cumprir as minhas promessas que envolvam os outros - e isso engloba trabalho, amizades, amores, colegas, familiares, encostados ou qualquer outra coisa do gênero... Massss quando chega a minha vez... ah, é aí que o bicho pega, pois sempre me vejo "descumprir" quase tudo aquilo que eu um dia prometi, jurei de dedos cruzados de escoteiro que jamais faria (ou, por outro lado, que faria o quanto antes...). Bem, como nunca fui escoteiro, acho que posso me dar esse crédito. Sim, posso, eu sei. Mas acho também que não posso mais ficar me enganando. Aprendi a certo custo como dizer "não" pra muitas situações e pessoas - e talvez seja por isso que, quando prometo algo a elas, cumpro. Porém, comigo mesmo a banda toca diferente, assim meio fora de tom e desafinado, e eu vivo tropeçando nas cascas de banana que planto pelo meu caminho. Não, ninguém me disse que era fácil mudar. Eu que me prometi, jurei que seria outro e... Bom, nada muito feito até então. Também não tô frustrado, não é pra tanto. Percebi apenas que querer muito algo não significa obter esse algo, mesmo que pra tal nos prometamos certas coisas... Por isso não quero mais me prometer nada, coisa alguma que seja. Ao contrário: quero fazer tudo pra mim sem o peso das cobranças de um "eu juro". Meu. Dos "outros". De quem quer que seja. Não é ser egoísta, e sim ser eu-mesmo. Assim como tô ou diferente, quem sabe. Quem sabe? Ninguém. Não é fácil. Não é difícil. Amanhã começo. Prometo... oops, fiz de novo... e quem disse mesmo que era fácil?...

..."mas prometer algo a si mesmo é estar fadado à traição"... (incrível como a gente escreve as coisas e nem se dá conta da verdade delas...)...

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...a querida Eury, lá do seu "Igualdade na diferença", me mandou um elo de uma corrente super bacana. Pelo que entendi, eu tenho de "eleger" 12 palavras da nossa riquíssima língua portuguesa que me soem interessantes, diferentes, bonitas ou que simplesmente me chamem a atenção... Bom, vamos lá (ah sim: a ordem em que aparecem não quer dizer nada...):...

...melancolia...
...liquidez...
...melífluo...
...fluido...
...paralelepípedo...
...conquanto...
...borboleta...
...girassol...
...esperança...
...tristonho...
...taxonomia...
...esverdeado...

...como essa corrente é super gostosa, passo a quem quiser respondê-la. Ai, tenho certeza de que vou querer mudar tudo assim que postar...rs...

- música do post: "o quereres", Caetano Veloso

22.2.08

apenas um rapaz

...o que o tornava diferente naquela noite era o fato de não chorar. Chovia forte, um frio cortante subindo-lhe pelas costas até os fios mais finos de cabelo da nuca loura e: não, ele não chorava. Mantinha-se ereto, firme, estóico como uma daquelas montanhas geladas dos filmes que assiste, de vez em quando, em suas madrugadas insones. Sozinho como as montanhas geladas, e um sorriso irônico coloriu meio amarelado sua face alva encostada no vidro esverdeado da janela aberta.
Esse rapaz não tinha pai nem mãe, o que podia fazer com que pensassem que o jeito meio distante e reservado, apesar de sua nítida extroversão, era apenas um reflexo disso. Digo com segurança que não, não era um reflexo disso. E digo porque conheço esse rapaz, e sei que se fosse de outro modo, ele o seria do mesmo modo, do jeito como eu ou qualquer outra pessoa que já o conheça (ou que venha a conhecê-lo) aprendeu a decodificar.
Mas se eu dissesse desse modo, certamente pensariam que o rapaz é complicado. Também não. Nessa noite incomum de frio cortante após um pleno dia de sol, escondido em casa como um bicho de vida noturna, após isso o rapaz apenas pensava em sair. Não sabia pra onde e na verdade isso era o de menos. Saber aonde ir ou o que fazer não faz parte de seu repertório de vida – esse rapaz não ensaia, não é do tipo que vive quadrado. Pelo contrário, ele não tem ângulos nem script; ele improvisa. O rapaz é redondo, apesar de sua magreza. Ser magro, aliás, dava-lhe a destreza de escapulir pelas menores frestas quando bem lhe conviesse ou quando fosse o momento oportuno. O rapaz é redondo sim, mas redondo de alma. Uma sorte e tanto, pois isso é de nascença adquirida, algo que não, não se aprende: ter a alma redonda proporciona, em um alguém, uma capacidade de adaptação única. Possuir a noção exata de qual máscara vestir em qual determinado momento fez do rapaz uma figura hábil, quase caricatura de si mesmo. Se o escorpião encalacrado pelo fogo desespera-se e finalmente opta pelo suicídio – escapismo covarde – em vez da morte certa o rapaz funde-se ao próprio fogo, aproveitando o seu calor pra depois calcinar em vingança aqueles que lhe atearam, sem dó, a sua mortalha.
Em suas longas poucas décadas de vida, ele, o rapaz, aprendeu a alto custo que confiar nos outros nunca é a melhor opção. Sua defesa é o prévio ataque. Sair como estrela de espetáculos em que lhe caberia somente o papel de coadjuvante era o que mais o impulsionava. Tinha confiança em si próprio, e a certeza de que pra ele havia sido reservado o melhor dos destinos. E sozinho. Que se dane, não precisava de quem quer que fosse mesmo. Sozinho. Talvez incompleto, mas ciente de si. Pro rapaz, a aparente completude das coisas apenas lhes camuflava suas fraquezas. E por isso é que se tinha forte.
Pronto, enfim decidira-se. Realmente ia sair. Optando por sua máscara de morcego, pensava em quantas e quais seriam suas vítimas esta noite. Aquela era sua máscara mais recorrente, a que usava nessas noites de frio cortante e lua cheia. Não era de uivar como os lobisomens fracos e carentes. Era de morder e arrancar do outro a sua própria subsistência, que consistia em basicamente provar ser: mais forte, mais inteligente, mais sagaz, mais rápido. Mais. Subjugar a existência alheia não era o seu objetivo primário, e sim uma de suas conseqüências secundárias.
O sorriso irônico amarelado deu lugar a outro, de um brilho misterioso e maléfico. E sarcástico. Presas a postos, estava pronto pra mais uma noite. Já é hora, é meia-noite, expansão de território, revista de suas posses. Um dia ainda seria muito, muito mais do que qualquer um. No entanto ainda era noite alta e ele não tinha a noção. O sorriso transformou-se em risada diabólica, sombria manifestação de seu espírito conquistador. Não, o rapaz não é um demônio, é gente como a gente, porém de um tipo de gente que aprendeu por força do hábito a se defender da gente. Mas tomou o precioso cuidado de não rir muito alto sua exata conclusão. Ter o cuidado de não se transbordar era necessário. Grossas gotas de um suor frio escorriam por suas costas nessa noite cada vez mais gelada, enquanto um único fio de sangue percorre uma trilha invisível desde seu pescoço até o forro colorido do estampado.
Seria esse mais um rapaz como qualquer outro. O que o torna diferente não é o fato de não ter pai nem mãe, mas o brilho intenso de seus olhos quando nos olha nos olhos. Ou talvez não. Talvez esse seja mesmo um rapaz como qualquer outro, e eu é que me tenho enganado, pois se todo brilho, assim como chama, dura pouco e apaga-se, num momento, de vez:
- Onde é que o rapaz vai parar, meu Deus?
Não houve resposta. A chuva cessou e ele saiu. Sem rumo. Novamente. Mas não importa. Apesar de forte, em suas fraquezas o rapaz chorava...

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...a sempre querida e carinhosa Gisele, lá do seu "Pois já é hora de pôr recordações para fora", presenteou o inacreditável mundo de alex e! com mais esse selinho super divertido (e que eu sempre quis ter...). Ela diz que vem ao meu blog, e eu digo muitíssimo obrigado pelas visitas sempre constantes e pelos comentários atenciosos. Um beijão pra ti, viu minina!!!...

...(e pra receber esse belo selinho, indico os seguintes blogs:

- "Dominus";
- "Pensamentos da poetisa";
- "Através do meu espelho";
- "Memórias de um adolescente";
- "Igualdade na diferença";
- "Jornal da lua",

pois, sempre que "EU VÔ!!!" a esses blogs, sempre tem alguma coisa ou divertida, ou instigante, ou emocionante, ou diferente, ou criativa ou, enfim, tudo de bom pra ler! E é por isso que eu volto sempre e os recomendo. Vale a pena!!!)...

- música do post: "samba de amor e ódio", Roberta Sá

19.2.08

reflexões d tardes nubladas

...tenho me sentido estranhamente desanimado pras coisas. Digo "estranhamente" porque tenho plena consciência de que agora, neste momento, as coisas deveriam estar diferentes pra mim. Que coisas, então me pergunto... E é aí que empaco. A resposta não vem e palavras todas soltas se esparramam cabeça adentro. Mas tudo bem. Uma hora tudo se arranja e volta ao normal... Ou não. Depende do que temos cada um sobre o que seja essa tal "normalidade". Talvez nem seja tudo isso; talvez seja nada demais. Só não sei o que pensar. A não ser que às vezes nosso corpo e nossas emoções não nos correspondem ou sequer reagem da maneira como esperamos. É mais ou menos como plantar girassóis: frágeis, nunca se sabe quando vão "vingar". Por vezes crescem tortos e o talo quebra. Fica a sensação de trabalho em vão, de energia desprezada. Por isso não planto mais girassóis. Em vez disso, resto na varanda a olhar pro alto e ver que o céu se fecha lentamente. Admiro a dança dos pássaros em debandada contra a chuva por vir. O desenho das nuvens me fascina. É possível ver tantas formas, descobrir tantos significados através delas... Me pego que nem bobo viajando lá no alto com elas. Também gosto de viajar nas pessoas. Não que isso seja algo proposital. Não forço. Apenas vem. Apenas acontece. Quando me dou conta, já criei toda uma vida praquele ilustre desconhecido meu. Tá, isso parece papo de doido (talvez até seja né...), massss, sei lá, algo me diz que há um objetivo por trás disso. E, se não isso, pelo menos alguma serventia. Gosto de ficar sozinho, no meu cantinho, "pensando na vida", bem como diz a vovozinha. E, por incrível que pareça, essas "pessoas", esses outros que crio por vezes aparecem e conversam comigo, me dão conselhos. No fundo no fundo sou eu mesmo, claro, mas é bom que nossas próprias decisões nem sempre soem como algo que realmente "parta" da gente... Vai ver que é essa a tal serventia. Ou então simplesmente me ajudar a escrever os textos menos pessoais que ando postando por aqui. Sei que nada disso deve tá fazendo muito sentido. E também não é pra tanto. São apenas reflexões de tardes nubladas típicas do verão carioca... Agora tá tudo cinza por aqui. Mais: tá tudo prateado. Adoro esse efeito. Dá um ar de nobreza melancólica ao sol que vai embora meio triste por não ter brilhado como deveria, dourado como bem queria. Enfim, isso me ensinou mais uma coisa: não se pode ter tudo... Masss, nada impede que a gente crie né. Sonhar não custa nada, a não ser assumir um tiquinho de loucura...

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...a sempre fofíssima Aninha, lá do seu "Pensamentos da poetisa", resolveu premiar o inacreditável mundo de alex e! com mais esse selinho, um dos mais lindos que já vi por aí. Ela afirma que aqui no mundo há uma mente iluminada que, no caso, sou eu mesmo!!! rs... Mais uma vez muitíssimo obrigado, querida, pelo presente, pelo carinho e pela consideração constante, viu! Quero apenas lembrar que esse selo é criação da Cris, lá do seu "Dominus", o que me faz ficar duplamente honrado pela indicação... Um beijão bem grandão pras duas!!!...

- música do post: "o vento", Los Hermanos